terça-feira, 9 de abril de 2013

Como a Finlândia constrói a melhor escola do mundo

 Algumas, observações que ajudam a refletir, seriamente, sobre Educação. O bom nesse caso é que não se trata do "achismos" e/ou "opiniões" que caracterizam os debates sobre Educação divulgados pela mídia tupiniquim. Mas, sim de dados de uma nação que consolidou uma Educação de qualidade para seus cidadãos. Chega de falácia! Vamos ao que existe e dá certo.

Saiu no Le Monde Diplomatique...

Como a Finlândia constrói a melhor escola do mundo


http://ponto.outraspalavras.net/2013/04/09/os-segredos-da-finlandia/


130409-Finlândia
Surpresa: não é perseguindo índices — mas oferecendo ampla liberdade curricular para que alunos descubram suas vocações e valorizando atitude e autonomia dos professores
Por Beatriz Rey, na Revista Educação
“Não!”, interrompeu Alfons Tallgreen, 13 anos, ao ouvir que o finlandês, sua língua materna, tinha raízes semelhantes às da língua russa. “O estoniano, o húngaro e o finlandês são línguas correlatas. Aconteceu assim: primeiro, o finlandês começou a ser usado no sul da Finlândia e, aos poucos, foi ganhando o norte do país”, conta o menino ruivo, aluno da 7ª série da Itäkeskus, em Helsinque, capital da Finlândia. Apesar de já conhecer a história de sua língua, Alfons quer, no futuro, estudar as propriedades de plantas e microorganismos. Pausadamente, explica que sua vontade inicial era ser dentista – a mãe o demoveu da ideia. Porém, já estava interessado em biologia nessa época. “Estava pesquisando a floresta aqui do lado da escola. Mas infelizmente as árvores serão cortadas para a construção de casas de madeira no lugar”, diz.
A escola em que Alfons estuda tem o foco específico em línguas. Ali, os alunos têm a opção de estudar diversos idiomas. É o caso de seu colega, Muaad Hussein, cuja família tem ascendência libanesa. Com a mesma idade de seu colega, o menino já conhece cinco línguas: árabe, sueco, italiano, francês e finlandês, além de entender também um pouco de espanhol. “É claro que nem todos os alunos se interessam assim. Alguns não querem nem ouvir os professores. Não pensam no futuro”, desabafa. Muaad tem razão. Ali, na Finlândia, os meninos e meninas são iguais a todos os outros no mundo: não gostam de escola, adoram o videogame, o computador, andam de skate em praças e passeiam em grupos pelos shoppings. O que leva, então, o país a ser sucessivamente o primeiro colocado nas avaliações do Pisa? Na última edição, que avaliou ciências, a média finlandesa foi de 563 – o Brasil alcançou 390 (52º de 56 países).
Um documento do próprio Ministério da Educação, criado para apresentar o sistema educacional finlandês a estrangeiros, começa a responder à pergunta. Logo no começo, há uma advertência: o sucesso só pode ser explicado em função de uma conjugação de fatores, e não por uma única ação. A primeira razão, diz, é que a sociedade finlandesa valoriza a educação e, portanto, tem uma atitude muito favorável à área. Os números dão subsídio à frase que, aparentemente, não diz muito: aproximadamente 75% dos adultos entre 25 e 64 anos têm diploma de ensino superior. Na Finlândia, o ensino é obrigatório dos 7 aos 16 anos – em outras palavras, cursa o ensino médio quem quer. Mas apenas 1% dos estudantes da chamada escola “compreensiva” (equivalente ao nosso ensino fundamental) não continua os estudos.
Ser professor
Muito dessa atitude favorável à educação provém de uma cultura desconhecida em terras brasileiras. Na Finlândia, o professor é visto com respeito – profissionalismo e responsabilidade envolvem a profissão. Há um componente histórico nessa valorização: há cem anos, quando o país ainda se configurava como nação, a pobreza reinava, principalmente no interior. Ali, quem tinha um diploma de professor era tratado como se fosse rei. Foi esse o relato de um membro do Conselho Nacional de Educação Finlandês, Reijo Laukkanen, em entrevista à Educação na edição 150. Hoje, é menos reverenciado, pois divide o conhecimento com profissionais de outras áreas. Mas nas ruas de Helsinque é possível perceber a atmosfera positiva que o envolve. Enquanto espera em frente à famosa loja de departamento Stockmann, Sari Nummila, 41, mãe de dois filhos, é categórica: “o que posso dizer? Nós precisamos deles. Ficaria feliz se um dos meus filhos se tornasse professor”, diz. Lea Itoonen, 56, mãe de três filhos e voluntária da Cruz Vermelha Internacional, diz estar satisfeita com a educação que recebem na escola. Só tem uma reclamação: antigamente, os professores tinham personalidade mais forte. “Gostaria que eles não apenas fossem um agrupamento excelente, mas tivessem mais atitude, enfrentassem os pais e o governo por melhores salários”, relata. Mas, de qualquer maneira, diz: “é uma profissão bonita para se ter aqui”. Mesmo entre os mais jovens, a percepção não se altera. Annette Backman, 21 anos, tem inclusive uma amiga que quer ser professora. “Eles são competentes e ela gosta da profissão”, relata.
O fato de o professor ter autonomia para trabalhar em sua sala de aula também colabora com a visão social tão positiva. Há um currículo nacional básico, que dita as linhas gerais do que deve ser ensinado, mas o docente pode escolher os métodos, os livros, o tipo de didática e inclusive optar ou não pelo uso da tecnologia. “O currículo não é sobre o que se ensina. É sobre o que os alunos devem aprender. Ele define as capacidades e habilidades que os estudantes devem ter quando terminarem seus estudos”, explica Heljä Misukka, secretária de Estado da Educação. Na Finlândia, antes de aprenderem os conteúdos, os alunos têm experiências práticas que auxiliarão no seu entendimento futuro. Um exemplo: na escola Itäkeskus, estudantes de 10 anos têm aulas de culinária. Mas, ao assistir a uma aula, percebe-se o motivo da intervenção dos professores quando eles explicam a reação do fermento em água quente e em água fria. Além disso, os alunos aprendem a economizar energia e água. É através dos saberes cotidianos, como fazer uma receita, que os pequenos estudantes já apreendem conceitos para, mais tarde, aprenderem o conteúdo. Tudo é muito bem amarrado.
Formação
Heljä lembra outro aspecto da profissão docente: os professores são altamente qualificados. Para começar, a concorrência nas universidades de pedagogia é enorme. Dados do Ministério da Educação dão conta de que, na última primavera, havia 6 mil candidatos para 800 vagas. Após ser aceito, o aluno deve completar o mestrado para poder lecionar em qualquer nível educacional (veja mais sobre formação de professores na próxima edição de Educação ). “Nós realmente podemos escolher os melhores”, coloca.
Não é difícil encontrar pelas escolas docentes cujo sonho de ser professor foi realizado. É o caso de Lejeune Hannele, 42 anos, que leciona apenas para alunos com dificuldade de aprendizagem na escola Itäkeskus. “Queria ser professora desde os 8 anos. Estudei seis anos para conseguir. Sempre gostei de estar com crianças”, conta. Lejeune passou seis anos no curso superior porque estudou letras durante quatro anos e teve um ano extra para ser docente e outro para ser professora de crianças com necessidades especiais. É importante notar que há um facilitador para a qualidade docente: os alunos já vêm com repertório e formação consolidada para a universidade, adquiridos durante o ensino fundamental e médio. Aliás, eis outro aspecto digno de nota: os ensinos fundamental é obrigatório e de graça para todos os alunos. Isso inclui materiais escolares, merenda, atendimento médico, atendimento dentário e transporte. No ensino médio, só fica a cargo do aluno o material escolar.
Liberdade e liberdade
O modelo de gestão educacional na Finlândia também é diferenciado. O Ministério da Educação não tem as mesmas funções que o MEC brasileiro. Responsável pela elaboração de políticas públicas e de legislação, ele as propõe ao Parlamento, que pode aprová-las ou não. É um órgão de caráter menos executivo. O Conselho Nacional de Educação age mais efetivamente na implementação das leis. Um exemplo: o Ministério opta pela existência de um currículo mínimo nacional. O Conselho, então, fica responsável pelo desenho desse currículo. Abaixo dele, estão os chamados escritórios estaduais, cuja função na prática é a elaboração de estatísticas sobre determinadas regiões. Quem realmente executa são os municípios. O material didático usado por eles não é inspecionado pelo Ministério desde 1990, quando o processo de autonomia se consolidou. Os municípios e as escolas têm liberdade para escolher o material didático mais adequado às suas realidades. Geralmente, os municípios que estão localizados no interior do país e têm menos condição financeira recebem um repasse de verba do governo central – algo em torno de 42% do orçamento municipal. Helsinque não recebe nenhum tipo de ajuda do gênero. Todo orçamento provém dos impostos municipais. “As pessoas dizem que gostariam de pagar mais impostos, já que consideram a escola um serviço muito importante. Eles são altos, mas eles têm retorno do governo”, aponta Heljä.
O documento do Ministério da Educação ressalta a existência de um sistema educacional que oferece oportunidades iguais a todos, independente mente da região em que moram, do sexo, da situação econômica, da língua ou das origens culturais. A maioria dos imigrantes que residem na Finlândia é composta por russos, estonianos, chilenos e chineses. Eles vão para as escolas regulares, onde aprendem o finlandês e a sua língua materna. Por trás dessa iniciativa está a intenção de que as raízes culturais não se esvaiam. “Se você não sabe sua própria língua, é muito difícil aprender outras”, coloca Heljä Misukka. A secretária de Estado enxerga alguns grandes desafios pela frente. Um deles é a discussão do número de alunos por sala. Quando assumiu o cargo, fez um mapeamento desse número em todos os municípios – o que não foi bem recebido nas cidades. Como as escolas são autônomas, há salas de 8 alunos e de 36, o máximo registrado. “Demos 16 milhões a eles neste ano e daremos mais 30 milhões no próximo ano para que deixem suas salas menores”, diz.
Outra questão, a formação continuada dos professores, toca num ponto importante: tecnologia. Mais uma vez, a rede autônoma cria sistemas paralelos. Algumas escolas, como a Itäkeskus, usam lousa digital. Mas os municípios que sofrem com problemas financeiros não podem arcar com esse custo. Heljä diz que ter medo da tecnologia não é uma atitude correta. Lembrando que a Nokia é finlandesa, afirma que grande parte dos alunos do 1º ano já tem celular. “Se vão à escola e lá não há nenhum tipo de tecnologia, a escola vira um museu. Se o professor quer ensinar como um aluno deve se comportar no universo on-line e a escola não puder lidar com isso, temos um problema”, levanta. Há um projeto-piloto no país que usa a tecnologia com crianças que têm necessidades especiais. Elas aprendem a ler e a escrever primeiro no computador, e depois vão para o papel. “É mais fácil para eles e não há nada errado com isso. Há diferentes tipos de aprendizes e diferentes soluções pedagógicas para eles”, afirma.
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*A jornalista Beatriz Rey viajou a Helsinque a convite da Embaixada da Finlândia no Brasil e do Ministério das Relações Exteriores da Finlândia

sábado, 24 de novembro de 2012

O Estado de Minas Gerais vive mais um capítulo de totalitarismo e desrespeito aos trabalhadores em educação


O Estado de Minas Gerais vive mais um capítulo de totalitarismo e desrespeito aos trabalhadores em educação
 
O Sindicato Único dos Trabalhadores e trabalhadoras em educação de Minas Gerais - Sind-UTE/MG - tem eleições gerais previstas para novembro de 2012. É um processo que envolve as 82 subsedes espalhadas por todo o estado. A categoria elege a direção estadual da entidade, as direções das subsedes e representantes para o Conselho Geral. Cerca de 79 mil profissionais estão aptos a votarem.  Os prazos eleitorais, como em qualquer entidade, são estabelecidos pelo estatuto. A novidade nestas eleições é protagonizada pela vergonhosa atuação do governo, através da Secretaria de Estado de Educação.
 
É de conhecimento público que o setor sindical do PSDB tem atuado em eleições de sindicatos. A primeira tentativa foi interferir no processo eleitoral do Sind-UTE/MG com inscrição de chapa. Como não conseguiu, tentou desmoralizar e desqualificar a atual direção do Sindicato, de modo a deixá-la desacreditada diante da categoria. Como também não teve êxito e viu que houve unidade da categoria com a construção de chapa única para a direção estadual, a aposta agora é tentar impedir que as eleições ocorram, proibindo a sua realização.
 
Esta proibição é uma ação sem precedentes em Minas Gerais.  Em toda a história de organização dos trabalhadores em educação da rede estadual, a categoria jamais foi impedida que, do seu local de trabalho, pudesse escolher a direção do seu Sindicato, até o governo Antônio Anastasia.
 
Ao justificar a proibição, a Secretária argumenta que o período de eleições do Sindicato coincide com o cronograma das avaliações do PROEB (Programa de Avaliação da Rede Pública de Educação Básica), e que este foi divulgado primeiro.
Argumenta também que as provas precisam ser feitas em “ambiente de tranquilidade”.  Mas o que esta postura esconde é a incapacidade do atual governo de lidar com uma entidade sindical que atua de modo independente e que coordenou, nos últimos anos, um processo de denúncia das condições de salário, carreira e de trabalho que vivenciam os profissionais das escolas estaduais. A atual Secretária não sabe lidar com a diversidade de opiniões e abandonou as mesas de reunião com o Sindicato durante todo o ano de 2012. E a opção da atual gestão é eliminar o pensamento divergente - característica de regimes totalitários.
 
O processo eleitoral do Sind-UTE/MG não traz nenhum tumulto e sempre ocorreu de modo tranquilo, sem interferir no cotidiano da escola. Por isso, o argumento de que a eleição não manteria o ambiente tranquilo, é irreal. A realização de avaliações é um procedimento inerente ao fazer pedagógico e ocorre no cotidiano da escola. Mais uma vez percebe-se que o argumento da Secretária é uma máscara que oculta os reais interesses do governo, que é enfraquecer o Sindicato interferindo diretamente no processo de escolha da direção.
 
A existência de sindicatos é intrínseca ao Estado Democrático de Direito. Sua organização é protegida por tratados internacionais, convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Constituição da República do Brasil. Sindicato faz bem à democracia.
 
Enquanto a sociedade brasileira consolida práticas democráticas, Minas Gerais anda na contramão, mostrando uma face de repressão à sociedade civil organizada.
O que de fato tumultua o ambiente escolar é a prática e a tentativa de controle ideológico do governo mineiro.
 
Beatriz da Silva Cerqueira
Coordenadora Geral do Sind-UTE MG
Presidenta da CUT Minas

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O social na fronteira das ciências


 
Artigo de Luciano Mendes publicado no O Estado de Minas de sábado (3/9/2011).

O governo federal lançou recentemente, com grande alarde e apoio da comunidade científica brasileira, o Programa Ciência sem Fronteiras. Segundo informações oficiais, o programa pretende baneficiar 75 mil pessoas em quatro anos. A maioria receberá bolsa para estudos no exterior em várias modalidades. Para ter uma ideia, apenas uma das agências federais envolvidas, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pretende conceder 14 mil bolsas para alunos de graduação estudarem de seis meses a um ano no exterior.

O programa é muito interessante e apresenta grandes méritos, daí a quase unanimidade com que foi acolhido pela comunidade científica. No entanto, é de lamentar a ausência das ciências humanas e sociais. Talvez isso se deva à ideia de que o país ganharia muito pouco, ou nada, com o envio de estudantes dessas áreas ao exterior. O contrário ocorreria com as áreas das ciências exatas, das engenharias e de todas as outras que aparecem como prioritárias para o programa.

Talvez devêssemos discutir se os estudantes de graduação das ciências exatas e das engenharias, por exemplo, vão para o exterior aprender cálculo, geometria, física ou química geral. É evidente que não. Isso eles poderiam aprender, alguma vezes, muito melhor, no Brasil. Trata-se, é claro, de oportunizar a esses jovens entrar em contato com outras culturas acadêmicas, científicas e políticas, as quais, acredita-se, propiciariam melhores condições para que se engajem na produção de uma ciência mais comprometida com o desenvolvimento tecnológico, mais próxima da indústria do que dos laboratórios universitários, por assim dizer. O fundamental, parece-me, é que o programa favorecerá a esses jovens universitários brasileiros o encontro com o outro, com o estrangeiro e a construir novas maneiras de ver o próprio Brasil. Enfim, trata-se de uma oportunidade criada para esses profissionais serem não apenas mais competentes, mas também mais sábios.

O que é difícil de entender é por que o programa não supõe que essa experiência de contato com o outro não é necessária justamente para aqueles profissionais formados pelas ciências humanas e sociais, já que eles, no cotidiano do seu trabalho nos serviços públicos, nas escolas, nos movimentos sociais etc., precisam exercitar-se no atendimento, no cuidado, na relação com o outro. Será que para a formação desses profissionais não seria até mais importante essa experiência de contato com o estrangeiro, com o outro, com a alteridade, para construir novas e mais ricas possibilidades de atuarem profissionalmente? Será que não estamos, na verdade, nos engajando numa política científica que supõe que o desenvolvimento social virá do desenvolvimento científico? Será que, capturada pela lógica econômica, a lógica do Programa Ciência sem Fronteiras se esquece que são os cientistas sociais os gestores do social e que, portanto, eles também têm que ter uma formação adequada a estes novos tempos? Será que nossos colegas que produziram o programa e a presidente da República, que o sancionou, imaginam que é possível desenvolvimento social sem o aprendizado de uma cultura política democrática sólida, sem a convivência da diversidade que o contato com o outro supõe ou sem o conhecimento produzido e cultivado pelas ciências humanas e sociais?

Quem sabe se o programa rompesse não apenas as fronteiras geográficas, mas também entre as ciências, considerando-as todas relevantes para o desenvolvimento social, não teríamos melhores condições de fazer deste não apenas um país de grande desenvolvimento econômico (já somos a sétima. economia do mundo) e científico (já somos o décimo terceiro em publicação de artigos indexados), mas também mais democrático e de melhor distribuição de renda?

Luciano Mendes de Faria Filho é professor de história da educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


Prof. Luciano Mendes de Faria Filho
Faculdade de Educação da UFMG
Centro de Estudos e Pesquisas em História da Educação
Projeto Pensar a Educação Pensar o Brasil - 1822/202

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

RESPOSTA AO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO DE 10 DE NOVEMBRO DE 2012

14/11/2012 PROFISSÃO DE HISTORIADOR: MARCHA DA INSENSATEZ OU DO DESCONHECIMENTO?
Nós, historiadores profissionais, sabemos que uma das regras básicas do nosso ofício é a elaboração de um discurso de prova, assentado na pesquisa e na crítica dos vestígios do passado, os documentos . Fernando Rodrigues, por não ter essa formação, talvez desconheça essa regra tão elementar e, por isso, não se deu ao trabalho de ler com atenção o documento que deveria balizar a sua análise (sic) publicada no jornal Folha de São Paulo de 10 de novembro de 2012: o Projeto de Regulamentação da Profissão de Historiador, aprovado no Senado Federal na última quarta-feira. Em nenhum momento este projeto veda que pessoas com outras formações, ou sem formação alguma, escrevam sobre o passado e elaborem narrativas históricas. Apenas estabelece que as instituições onde se realiza o ensino e a pesquisa de História contem com historiadores profissionais em seus quadros, por considerar que, ao longo de sua formação, eles desenvolvem habilidades específicas como a crítica documental e historiográfica e a aquisição de conhecimentos teóricos, metodológicos e técnicos imprescindíveis à investigação científica do passado. Da mesma maneira, a regulamentação pode evitar que continuem a se verificar, nos estabelecimentos de diversos níveis de ensino, situações como a de o professor de História ser obrigado a lecionar Geografia, Sociologia, Educação Artística, entre outras disciplinas, sem ter formação específica para isso (e vice-versa).
Temos certeza que o Senador Cristovam Buarque, tão sensível aos problemas da educação brasileira, apóia esta idéia, pois ela possibilita um ensino mais qualificado.
Temos certeza também que o Senador José Sarney, conhecedor do teor do projeto, está tranqüilo, pois sabe que não vai ser impedido, como nenhum cidadão brasileiro, de escrever sobre a história de seu estado, ou de qualquer período, indivíduo, localidade ou processo. Isso atentaria contra as liberdades democráticas, das quais os historiadores profissionais são grandes defensores.
Fique tranqüilo senhor Fernando Rodrigues, o senhor também poderá escrever sobre história. Só sugerimos que leia os documentos necessários antes de o fazer.
Benito Bisso Schmidt
Presidente da Associação Nacional de História - ANPUH-Brasil
(Gestão 2011-2013)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

REFLEXÕES INTEMPESTIVAS MAS SERIAS SOBRE EDUCAÇÃO



Há muito tempo que as "opiniões" sobre educação que circulam na mídia brasileira tem me causado constrangimento. Na verdade, considerando que o país tem uma enorme massa de pesquisadores nesta área de conhecimento, é grave o fato de que a concepção de educação que  nossos conterrâneos recebem como "informação" esteja assentada em OPINIÕES. 

Mal comparando, a situação equivale a uma discussão entre um físico e um filósofo, na qual o último queira desqualificar a lei da gravidade com reflexões e argumentos teóricos. A metáfora não se encerra aí: mas, este último é que seria entrevistado e reconhecido pelos "jornalistas" como detentor do conhecimento e o físico, especialista na área, ficasse fora do debate.

No Brasil contemporâneo é isso que tem ocorrido! Pode-se imaginar as ENORMES distorções que a situação tem causando, imediatamente à população e o que virá a suceder com a nação, em longo prazo. 
Mais do que uma dúvida, trata-se de uma ameaça. E gravíssima! Os interesses por trás destas "opiniões" são os mesmos de sempre.

Afinal, o país depois dos governos Lula e Dilma entrou numa trajetória similar a solução empreendida nos EUA nos anos 1930: a economia que voltava-se para a exportação descobriu que poderia ter foco no mercado interno que ganhava força com medidas de inclusão social. Entre elas é fundamental destacar: a correção do salário, muito mínimo acima da inflação – levando seu poder de compra de 80 para dólares para 300; os programas sociais como o  Bolsa Família – que socorre famílias de baixíssima renda.

Além disso, houve uma revolução na política voltada para Educação, marcada pela decuplicação das Escolas Técnicas Federais, a duplicação e distribuição geográfica das universidades federais. Acrescente-se o programa de financiamento da educação superior, por meio do FIES E PROUNI. Uma política volta para a Educação que resultou num dos mais arrojados programas de investimentos para na área na história do país.

Assim, na contramão destas "opiniões" que circulam na mídia brasileira, realizadas por gente regiamente remunerada  para fazê-las, segundo interesses muito diversos daqueles que são os da imensa maioria dos brasileiros, ou por pessoas estúpidas mesmo, vamos procurar analisar a Educação neste Blog e trazer para o debate público pesquisas e reflexões que têm sido desenvolvidas no mundo inteiro. A intenção é estabelecer um fórum de debate sério, assentado em pesquisas e/ou reflexões de renomados intelectuais que se dedicaram ao campo da Educação durante a maior parte de suas vidas e que colocam a baixo, se não todas, certamente a maioria destas concepções que têm alimentado o imaginário nacional.

Enfim, chega de opiniões diletantes! Abaixo o conhecimento de almanaque! Fim às considerações gerais!

Bem vindo ao mundo real da Educação, pois este espaço será regido por alguém que trabalha há três décadas na/com educação: nas duas primeiras, como professor do Ensino Básico (em todas as suas modalidades e com todos os públicos) e na última, como pesquisador e professor universitário (em instituições particulares e públicas, mais recentemente). Sempre pensando de forma compromissada e atenta a Educação – com maiúscula.